Laboratório investe no desenvolvimento de vacina contra o tabagismo

O Laboratório Cristália anunciou nessa semana os primeiros resultados de uma pesquisa para desenvolver uma vacina contra a dependência de nicotina, com investimento de até R$ 150 milhões e o objetivo de interromper o ciclo químico que mantém o fumante preso ao cigarro.
Em fase inicial de desenvolvimento, a chamada Early Discovery, o projeto conduzido com cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) demonstrou, em testes com roedores, capacidade de impedir a adicção, segundo a farmacêutica, que ainda precisa vencer estudos pré-clínicos, testes em humanos e o crivo da Anvisa antes de qualquer uso clínico. A aposta ocorre sob o peso da própria história recente da companhia, marcada pela polilaminina, substância apelidada de “molécula de Deus” que gerou onda de judicialização e expôs a distância entre anúncios científicos e aplicação real.
A estratégia do imunizante é estimular o sistema imunológico a reconhecer e capturar a nicotina ainda na corrente sanguínea, impedindo que ela alcance o cérebro e produza a sensação de prazer associada ao vício. Como a molécula da nicotina é pequena demais para, isolada, despertar resposta imunológica, ela é acoplada a uma estrutura reconhecida pelas células de defesa, e esse complexo passa a gerar anticorpos neutralizantes capazes de se ligar à substância.
Quando o fumante traga, o conjunto formado por anticorpo e nicotina torna-se grande demais para atravessar a barreira hematoencefálica, de modo que o cigarro perde o efeito prazeroso. Por atuar apenas no sangue, a abordagem evitaria efeitos colaterais neuropsiquiátricos comuns em medicamentos que agem no sistema nervoso, segundo o laboratório, que ressalta que a molécula não tem efeito psicotrópico.
A concepção partiu de Ogari Pacheco, fundador e presidente do conselho diretivo do Cristália. “O tabaco é um dos piores vícios. Mata aos poucos, em função de diversas doenças graves, como câncer, infarto e AVC. Mas é muito difícil abandonar o hábito e não ter recaídas”, afirmou o executivo.
Segundo ele, a vacina foi desenhada para atuar como aliada dos tratamentos tradicionais, sobretudo na fase de manutenção da abstinência, uma vez que “é justamente a recaída que a vacina do Cristália pretende prevenir”, já que a nicotina ativa receptores nicotínicos de acetilcolina no cérebro, favorece a liberação de dopamina e reforça o consumo compulsivo.
Os resultados apresentados restringem-se a animais. Os antígenos sintéticos, produzidos pela planta Farmoquímica Oncológica do complexo industrial de Itapira (SP), mostraram-se eficazes em induzir a geração de anticorpos específicos, e, em modelo experimental de desafio, a candidata vacinal demonstrou capacidade de impedir a dependência química.
Texto e foto: reprodução/Ver o Fato, com edição NH Notícias





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