Cotidiano

Doação de órgãos entre vivos amplia transplantes e salva vidas no Paraná

Quando se fala em transplante e doação de órgãos, a primeira imagem que vem à mente costuma ser a de um gesto essencial de solidariedade, após a dor pela perda de alguém, com a confirmação de morte encefálica de um doador. No entanto, existe outro caminho para transformar histórias e devolver saúde e qualidade de vida – o transplante inter vivos, procedimento em que uma pessoa saudável doa voluntariamente um órgão, ou parte dele, para proporcionar um novo começo a quem precisa.

 

Diferente do processo tradicional com doadores mortos, a modalidade inter vivos não depende da lista de espera convencional. O órgão é destinado de forma direta entre doador e um receptor pré-definido. Por envolver um doador vivo, a doação contempla estruturas que o organismo humano consegue ceder sem comprometer sua função vital. É o caso do rim, em que a pessoa doadora segue uma vida perfeitamente normal com o órgão residual; do fígado, do qual se retira apenas uma parte que se regenera com o tempo; pulmão e da medula óssea.

 

O Paraná segue em destaque em relação aos índices de transplantes no país, mas por trás de cada número existe uma história de recomeço. A doação inter vivos demonstra a força do amor ao próximo e é preciso conscientizar a população que, com o acompanhamento médico adequado, o doador segue com uma vida perfeitamente saudável após o procedimento.

 

Os dados do Sistema Estadual de Transplantes (SET/PR), da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), apontam que, dos 273 transplantes de rim no Estado neste ano, 24 tiveram origem em doadores vivos. Já no caso dos procedimentos hepáticos, dos 208 transplantes de fígado no período, 11 ocorreram via doação inter vivos. Em um recorte mais amplo, entre 2016 e 2025, o Estado registrou 695 transplantes renais e 72 hepáticos a partir de doadores vivos, dentro de um universo total de 3.794 cirurgias de rim e 1.791 de fígado.

 

A teoria por trás dos números ganha rosto e história na vida da dona de casa Ivone Reinhold Vieira, de 63 anos. Diagnosticada ainda jovem com rins policísticos após anos de dores sem causa definida, ela viu a rotina mudar drasticamente quando a perda da função renal a levou para a hemodiálise. A salvação veio de onde ela já encontrava apoio diário, o marido, José Milton Vieira, de 68 anos, com quem compartilha a vida há mais de quatro décadas.

 

Após buscarem atendimento especializado em Curitiba, a família deu início aos testes de compatibilidade. Para a surpresa da equipe médica, José Milton apresentou entre 25% e 30% de compatibilidade com a esposa, um índice expressivo para pessoas sem laço consanguíneo. Sensibilizado pela rotina severa que a esposa enfrentava, ele não hesitou em se colocar como primeiro voluntário para a doação. “Era muito sofrimento para ela, e quando o médico nos disse que era possível alguém da família doar, não tive dúvidas, tinha que ser eu o doador”, destacou José Milton.

 

A cirurgia foi feita em 2009, no Hospital da Cruz Vermelha Paraná, em Curitiba, ocorreu sem intercorrências e garantiu uma recuperação rápida para ambos. Passados 17 anos do procedimento, o casal mantém acompanhamento médico de rotina e comemora a retomada de uma vida plena e sem limitações severas. Para José Milton, o cuidado contínuo com a saúde é um detalhe simples diante do ganho de ver a esposa recuperar a vitalidade e o bem-estar ao seu lado.

 

Texto e foto: reprodução/AENPR, com edição NH Notícias

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